Já te aconteceu sentir que alguém da tua família “aguentava tudo” de um modo quase silencioso e te perguntaste porquê? Olha, a psicologia tem uma explicação curiosa: as crianças dos anos 60 e 70 ficaram mais resilientes não porque os pais fossem melhores, mas por uma espécie de negligência benigna que as forçava a se auto-regular.
A psicologia diz que as gerações dos anos 60 e 70 ficaram mais resilientes por negligência benigna
Em muitos bairros da época, as crianças saíam de casa de manhã e voltavam ao pôr do sol. Sem telemóvel, sem rastreamento. Isso criava repetidas micro-dificuldades que funcionavam como treino emocional.
Um estudo lido recentemente aponta que a redução do tempo de brincadeira livre está correlacionada com maiores índices de ansiedade na infância e adolescência. Numa observação pessoal, um tio que cresceu nos anos 70 lembra-se de voltar para casa suado e com problemas para resolver sozinho — e descreve uma confiança prática que hoje admira.
Insight: essas experiências rotineiras acabavam por criar um nível básico de resistência ao stress, algo cada vez mais raro.
O que é resiliência emocional na infância?
Resiliência emocional é a capacidade de enfrentar contratempos, recuperar e seguir em frente. Não é engolir tudo em silêncio; é ter estratégias internas para lidar com medo, frustração e vergonha.
A psicóloga Lisa Damour fala da importância da exposição a pequenas adversidades para construir essa tolerância. Pois é: a resiliência cresce com prática, não com proteção total.
Insight: tolerar desconforto controlado ensina a criança a perceber que o sentimento passa e que ela consegue lidar.
Como a negligência benigna treinava a auto-regulação
Imagina o João, hoje com 58 anos, que aos 9 ficou com o pneu da bicicleta furado longe de casa. Sem pais para ligar, teve de pedir ajuda, negociar e persistir. Falhou, tentou outra vez e acabou por conseguir. Essa repetição construiu o que alguns chamam de calos emocionais.
Na prática, quando um adulto resolve tudo rapidamente, a criança perde a oportunidade de aprender a esperar, a tolerar frustração e a encontrar soluções. Com tecnologia e supervisão contínua, muitas dessas “academias do cotidiano” desapareceram.
Insight: pequenos desafios não são cruéis; são exercícios para o músculo da autonomia.
Como recuperar o lado bom sem repetir os erros do passado
Não se trata de voltar aos excessos dos anos 70. Trata-se de reinserir fricção segura na rotina. Deixar a criança andar uma curta distância sozinha, pausar antes de intervir em todas as discussões ou não corrigir imediatamente um erro no trabalho são exemplos práticos.
Um plano simples: escolher uma “coisa difícil de baixo risco” por semana e permitir que a pessoa — criança ou adulto — viva o desconforto e aprenda. Ter adultos como rede de segurança emocional, e não como solucionadores automáticos, é a chave.
Insight: a resiliência volta a crescer quando se cria espaço para o erro, a espera e a resolução própria — esses gestos pequenos que ninguém posta, mas que forjam confiança.